Eu considero que ir ao médico é uma tarefa dificultosa. Imagine uma cena em que há duas pessoas em uma sala. Uma dessas pessoas está com o rosto triste, cabisbaixo, melancólico e doloroso. A outra é o paciente. Trabalhei muitos anos com médicos, e isso fez me afastar de consultas e exames. Imagina sair do seu trabalho e entrar em um consultório em que seu chefe vá lhe examinar. Me recordo de uma vez ter ido a uma consulta e a médica, ao saber que trabalhava em uma operadora de saúde, me questionar sobre a morosidade no processo de autorização de alguns procedimentos cirúrgicos do qual ela fazia. Resultado: Entrei para fazer uma consulta de rotina, e saí de lá com enxaqueca.
São tantas reclamações que fazem o muro das lamentações parecer um meio-fio. Posso me recordar das diversas e diversas reclamações dos mais variados tipos, como do caso em que minha equipe e eu levamos a diante um questionamento ao nosso superior do porquê os funcionário utilizavam a mesma copa dos doutores. Nelson Mandela se reviraria no túmulo ao descobrir a segregação “medical”.
A questão em sí não está em reclamar ou questionar algo. Isso é válido. O problema é o trato com relação à esses aborrecimentos com a vida alheia, e como vemos quem faz tal reclamação. A verdade é que há uma cultura do culto em relação a algumas imagens no Brasil, como a dos políticos, juízes e policiais, e os médicos fazem parte desse time. Isso causa certa inferiorização por parte do restante da população que não possui o título de “dotô”. Tal tratamento traz um contraste muito nú da realidade brasileira, que vê o outro como a imagem a ser seguida, e realça a desigualdade não apenas social, mas de consciência. Apesar de não parecer, médicos também adoecem, juízes também erram e policiais, bem… você entendeu! Vamos evitar a fadiga (e o processo).
Apesar da dificuldade, é necessário entender que essa mudança de mentalidade e cultura é necessária. Esse status quo vem se mantendo, e sendo reforçado. A mídia reforça a ideia quando põe em posição de “suspeita” a médica que foi pega em flagrante adulterando laudos do INSS, mas rotula de “marginal” aquele Zé da Silva que está sendo investigado por furto de um celular. Precisamos ser críticos em relação ao nosso entorno, e entender que a igualdade está no nosso dia-dia, e não apenas no Caput do 5° Artigo da Constituição, ou em Gálatas 3:28, para os mais religiosos. Se a nossa percepção sobre a realidade não mudar, a lei continuará sendo apenas uma bela poesia, e nós maus leitores.
Matias Collaço Scolaro