Muitas coisas eu aprendi com minha filha. Com ela a conversa só era interrompida pelo café da tarde com as amigas ou pelo desenho que passava aos sábados de manhã. Conversávamos sobre Barbie, filmes, músicas e até sobre dinossauros, e talvez seja por isso que ela tenha uma argumentação tão boa. Era quase impossível chamá-la para dormir sem que houvesse uma boa resposta:
- Filha, sai da rua. Vem pra casa que já está tarde.
- Ah mamãe, se a lua não foi dormir, por que eu deveria?
Dizia isso porque eu sempre a chamava de “minha Estrela”, mas não achei que ela usaria o meu amor contra mim dessa maneira.
De qualquer modo, com ela não existe dia ruim. Desde que começou a ler Harry Potter, não para mais de fazer perguntas. Mas são perguntas demais e não tenho tantas respostas.
Depois de uma sexta cheia de trabalho, decidi levá-la ao café da esquina que ela ama. Ela diz que adora ir lá porque eles tocam boas músicas dos Beatles, mas eu sei que ela gosta também do filho do dono da cafeteria. Depois do café fomos à praia e sentamos na areia. E lá vinha ela com suas indagações:
- Mamãe, tudo morre?
- Sim filha, tudo morre.
- Mas, e depois?
- Depois vira pó.
- Até as borboletas?
- Sim filha.
- E os gatos? Também viram pó?
- Sim filha, até os gatos.
- E as estrelas? Elas também?
- Também.
- E o amor mamãe? Também vira pó?
- Não filha. Ele vira pólen.
- E depois?
- Depois cresce como rosa, em outro lugar.
Chegamos em casa e fomos dormir. A noite, me levantei com insônia e fui para a sala, fiz um café e sentei-me na poltrona com um livro. Atrás de mim, sinto leves pisadas de pantufa e vejo sua sombra atrás do abajur.
- Mamãe, oi.
- Oi filha! Também não consegue dormir?
- Não consegui, tive pesadelos.
- Ah tudo bem, senta aqui.
Após umas vinte páginas, alguns cafunés e um certo silêncio, ela vira-se e me pergunta:
- Mamãe, o papai deve ser uma rosa muito bonita né?
- Sim filha. Ele é.
Matias Collaço Scolaro