Estávamos a sós e, sobre a mesa, encarávamos um ao outro. Naquela sala, ninguém mais do que eu, meu café frio na xícara de porcelana branca, e ele.
Quando iniciamos nossa relação, éramos jovens e tudo era novo, fazíamos coisas que os mais novos de hoje sentiriam inveja. Quando o conheci, em uma loja de artigos e de escritório, não diria que foi amor à primeira vista, mas voltei lá para tentar a sorte de reencontrá-lo, e tive. Desde então, ficamos juntos. O tempo foi passando e, bem, diria que nem tudo funciona mais como antes.
Lembro da vez em que, juntos, abrimos sozinhos sem qualquer chave a porta de um salão de jogos em um hotel em Viena, destinado apenas aos hóspedes da suíte. Corremos feitos loucos pelo corredor quando disparou o alarme. Ou também da vez que desparafusamos e roubamos um Kadett 94, xodó da época, e passeamos pela praia até fugirmos. Naquela excitação, você rasgou a minha roupa e, juntos, fugimos mato adentro até a viatura passar.
Mas nossa relação não se desgastou pela saudade que sinto desses momentos, que agora só vivem nas paredes da minha memória, mas sim no dia a dia, quando a poeira da obra baixou. Você deixou de ser você. Nós enferrujamos e você parou de abrir o vinho que tomávamos a noite. Hoje, a adega acumula o pó que nós inalamos.
Você costumava acompanhar, também, meu pai na fazenda. Fazia-lhe companhia e era muito útil, até que paramos de ir à fazenda porque você já não ajudava mais no corte e no conserto da cerca. Depois, parou de talhar a madeira e, assim, meu pai entendeu que você já não queria mais acompanhá-lo. Não é como se eu tivesse te jogado em um canto, ou guardado em uma gaveta, mas apenas que enferrujamos juntos, e deixamos de acompanhar um ao outro. Já chorei de ódio e me senti sozinha, desacompanhada, sem você. Principalmente quando te vejo pela casa, pois sinto que não está mais comigo, e que não quer me acompanhar.
Naquela mesa, eu tinha que tomar uma decisão. Fizemos muitas coisas juntos, mas agora a única coisa que você conseguia era me machucar, me matar. Eu pensei na opção, seria romântico, imaginei a cena de apodrecermos juntos. A navalha foi a única que aguentou o nosso tempo, e hoje a única coisa que funciona é o corte. Mas não seria justo, eu ainda tenho utilidade e amor para dar, e a única coisa que te restou é o poder de sangrar alguém.
Não quero viver com medo.
Por isso, ontem fui novamente à loja de artigos. Não buscava nada em específico, acho que foi mais por nostalgia, por sedução, do que por traição. Mas aconteceu. Era um Victorinox legitimamente suíço na vitrine. Você sabe, não é qualquer canivete.
Desculpe.
Matias Scolaro