Roupas jogadas e rabicós no sofá. Lençol estirado no canto da lareira, e o fogo queimando a lã grossa do cobertor. Entre as meias, livros e CD 's que abandonaram a estante. Essa é a imagem do retrato que tenho de você. A bagunça que era, a loucura que você deixava. Casa bagunçada. O vai e vem das minhas blusas e a nossa correria do dia a dia.
- Está um caos! - Eu respondia, ao ser perguntado sobre como a vida ia. Claro, é isso que respondemos, e seguimos adiante. “Está tudo bem, apenas um pouco corrido”, essas coisas, você sabe.
Bem, não sei porque estou escrevendo, se é que você está lendo. O fato é que, sim, arrumei a casa. “Casa bagunçada” é um termo que a gente utiliza quando a nossa vida está agitada, mas não quer dizer, em hipótese alguma, que estamos mal. Quando estamos mal, falamos “estou sem chão”, ou, quando somos descobertos, falamos “a casa caiu!”. Nessa nossa língua portuguesa, a palavra “casa” pode ocupar vários espaços além das quadras e das ruas. Mas, de fato, estou com a casa arrumada. Agora, consigo encontrar as meias, e a vassoura sempre está lá, no mesmo lugar de sempre. Ao passo que o tempo passa, nada se move. É como se fosse um retrato. Parado. Calmo. Silencioso. Sem você.
A poeira já tomou conta da biblioteca, e a sala já criou mofo nos cantos. O silêncio ensurdecedor, quebrado pelo “tic-tac” do relógio é a única coisa com o qual passo o meu tempo. Desde o dia em que você se foi, desde o dia em que eu arrumei a casa, eu sempre encontro tudo no mesmo lugar, parado. Você sempre deixava nossa casa desorganizada, bagunçada, e eu não encontrava nada, mas nunca reclamei disso. Minha reclamação, agora, é que tudo está em ordem. Tudo aqui, sem você, está parado, e a única coisa que se movimenta é o tempo. Hoje as traças ocupam os mesmos buracos das artérias, e a poeira acumula desde o dia em que você se foi. Sempre quando eu procuro, eu o encontro lá, acumulando poeira, o meu coração guardado, sem pulsar.